Lucro sequestrado: Como a Agepar pode zerar o nosso PPR 2026
A euforia do lucro bilionário de 2025 ficou no passado. O tombo do mercado financeiro na última quarta-feira (24/06), logo após a publicação dos Fatos Relevantes da Sanepar, acendeu o sinal vermelho definitivo para os trabalhadores. Como colocou na manchete o portal Money Times na matéria de Renan Dantas, “Sanepar (SAPR11): Dividendos extraordinários vão para o ‘ralo’ com decisão de agência e ação cai; entenda”. As ações desabaram 4%, cotadas a R$ 37,26, e o Conselho de Administração já suspendeu a distribuição de Juros sobre o Capital Próprio (JCP) aos acionistas.
Mas o verdadeiro prejuízo não está na Bolsa de Valores; está no bolso dos quase 10 mil trabalhadores da companhia. A disputa judicial e regulatória entre a Sanepar e a Agência Reguladora Agepar sobre o destino de um precatório bilionário ameaça diretamente o Programa de Participação nos Resultados (PPR) de 2026.
Para o presidente do Sindael, Marco Santana, a conta dessa briga não pode ser empurrada para a categoria: “A Sanepar recebeu o dinheiro, o caixa da empresa está cheio, mas por conta de uma canetada da Agepar, eles vão lançar isso como dívida futura no balanço. O Conselho de Administração já cortou o JCP dos acionistas, o que é um claro aviso de que estão preparando o terreno para corte no nosso próximo PPR. PPR depende de lucro, e sem lucro, o PPR vai a zero”.
Traduzindo: Se entraram R$ 4 bilhões, por que a Sanepar vai perder dinheiro?
A pergunta na cabeça de todo trabalhador é justa: se o dinheiro entrou no caixa, como a empresa quebra as pernas e o PPR some? Para entender essa armadilha contábil, pense na sua vida financeira.
Imagine que você recebe um processo antigo na Justiça e entram R$ 4.000,00 limpos na sua conta. Você comemora, gasta uma parte com a família (como a Sanepar fez em 2025, pagando dividendos e PPR) e planeja o futuro. No dia seguinte, a Justiça volta e diz: “Olha, o dinheiro entrou na sua conta, mas você não pode ficar com ele. Você vai ter que gastar R$ 2.000,00 fazendo um serviço de graça para o seu vizinho e, para os outros R$ 2.000,00, você vai ter que dar desconto no seu trabalho normal até o dinheiro sumir”.
Percebeu o drama? O dinheiro entrou, mas a ordem judicial te obrigou a gastar tudo de uma forma que zera o seu ganho e ainda puxa o tapete do seu salário nos meses seguintes. É exatamente isso que a Agepar está fazendo com a Sanepar ao exigir que 100% dos R$ 4 bilhões paguem a conta da “modicidade tarifária”.
O dinheiro só passou pela conta. A Sanepar foi obrigada a dar desconto para os clientes e a fazer obra sem receber nada em troca. Com isso, a arrecadação da empresa cai e o lucro desaparece do papel.
E você sabe muito bem qual é a regra do jogo: sem lucro no balanço, o nosso PPR vai a zero. A politicagem fez a festa com o caixa da empresa, e agora trabalhador paga o pato!
Veja como a agência dividiu a canetada em duas metades de R$ 2 bilhões, e por que nenhuma delas vira lucro:
- Metade do dinheiro (50%) virou desconto na tarifa
A Agepar mandou dar 25% de desconto na tarifa mínima (de até 5m³) de água e esgoto para todos os segmentos.
- O impacto real: Na prática, a Sanepar vai continuar trabalhando, tratando a água e coletando o esgoto, mas na hora de receber do cliente, a conta vai vir muito menor. Aquela dinheirama que entrava todo mês no fluxo de caixa sumiu. A empresa vai deixar de arrecadar. Sem arrecadação, a receita despenca e o lucro some.
- A outra metade (50%) virou “Investimento não oneroso”
Normalmente, quando a Sanepar faz uma obra (uma estação de tratamento ou uma nova rede), ela gasta o dinheiro, mas a Agepar autoriza a empresa a reajustar a tarifa depois para recuperar esse investimento com juros e lucro. É isso que dá valor à empresa.
- O impacto real: “Investimento Não Oneroso” significa que a Sanepar será obrigada a gastar R$ 2 bilhões cavando buraco e assentando tubo, mas está proibida de receber qualquer centavo de retorno por isso. Ela gasta o dinheiro do caixa e recebe zero de lucro futuro. É o equivalente a você reformar a casa do seu chefe de graça, pagando o material do seu próprio bolso.
Para piorar, a Agepar exigiu que tudo isso, retroativo a setembro de 2025, seja atualizado pela taxa WACC regulatória de 8,08% ao ano, em termos reais. Ou seja, a dívida contábil da Sanepar só cresce.
A irresponsabilidade da politicagem eleitoreira
O Sindael aponta o dedo diretamente para os culpados por essa crise: deputados oportunistas. Há pelo menos dois anos, figuras políticas vêm usando a tribuna para fazer demagogia, exigindo que a totalidade do precatório fosse usada exclusivamente para abater tarifas, de olho única e exclusivamente no calendário eleitoral.
“Essa é a política do ‘bonzinho com o chapéu alheio’. Deputados que só pensam na eleição ignoraram completamente a sustentabilidade de uma empresa que atende o estado inteiro. Esqueceram que atrás do CNPJ da Sanepar existem quase 10 mil famílias de trabalhadores que dão o sangue pela empresa. Fazer média com o eleitorado destruindo a capacidade financeira da maior empresa do Paraná, derrubando o valor de mercado dela e jogando o emprego dos pais de família no lixo é uma irresponsabilidade”, desabafa Marco Santana.
Em entrevista ao Money Times, o CEO da Sanepar, Wilson Bley, confirmou o tamanho do estrago. A expectativa da diretoria era que a Agepar seguisse a regra antiga, que destinava 75% dos recursos para a redução de tarifas e 25% para a própria companhia — margem que manteria o equilíbrio do balanço e garantiria os proventos extraordinários. Diante da negativa de 100%, resta à empresa tentar pleitear na Justiça que valha a solução estabelecida quando foi feito o registro contábil original.
O Sindicato deixa claro que apoia tarifas justas para a população, mas não aceita que a empresa seja asfixiada financeiramente por pura pressão política.
“Se a receita vai cair por conta de uma imposição regulatória e política, nós exigimos que os efeitos desse precatório e das provisões sejam expurgados (isolados) do cálculo do Lucro Líquido para fins de PPR. O balanço para o mercado e para o governo pode ser um, mas o balanço para avaliar o empenho do trabalhador tem que ser a realidade da nossa produção!”, finaliza Marco.



