Celepar privatizada: vender dados, terceirizar riscos e cobrar a conta do povo
A privatização da Celepar não é “modernização”. É a entrega de uma infraestrutura estratégica do Estado — aquela que sustenta sistemas e bases de dados de saúde, educação, segurança pública, justiça, arrecadação e serviços digitais — para a lógica do lucro. E quando a lógica é lucro, o cidadão deixa de ser sujeito de direito e vira “ativo”.
Nos últimos dias, o processo avançou de forma concreta: o Governo do Paraná anunciou que publicou o edital do leilão de desestatização, reforçando o discurso de que os dados “seguem sendo dos cidadãos”, com o Estado como “controlador” e a Celepar como “operadora”. (Governo do Estado do Paraná)
Mas, ao mesmo tempo, o próprio histórico do caso mostra suspensões, idas e vindas e questionamentos técnicos e jurídicos, inclusive no Tribunal de Contas do Estado do Paraná. (Governo do Estado do Paraná)
O Sindael deixa claro: é contra a privatização. Porque não existe “venda segura” quando o que está em jogo é soberania digital, privacidade e continuidade de serviços essenciais.
A promessa de economia não fecha
O governo vende a ideia de “economizar” e “melhorar serviços”. Em vídeo e declarações replicadas por opositores, Guto Silva, Secretário das Cidades do Estado do Paraná, fala em economia de R$ 150 milhões/ano. (Facebook)
Só que essa promessa é genérica, não vem acompanhada de transparência compatível com o tamanho da decisão. O ativista Thiago Bagatin e o Coletivo Salve Seus Dados sustentam uma denúncia grave: de que o Estado já teria gasto mais de R$ 1 bilhão em movimentações ligadas ao projeto de privatização.
Não é só “TI”: é o cofre digital do Paraná
A Celepar é um pilar operacional do Estado. Quando o governo diz que “o Estado continua controlador” e a empresa (já privatizada) seria “operadora”, ele tenta reduzir tudo a um desenho jurídico. Só que, na prática, quem opera a infraestrutura tem poder real:
- poder de definir arquitetura, rotinas, acessos e integrações;
- poder de contratar terceirizados e subfornecedores;
- poder de estabelecer prazos e custos (e depois “renegociar” com o Estado refém);
- poder de transformar dependência técnica em dependência política e financeira.
Privatizar uma empresa que sustenta serviços públicos digitais é criar o risco clássico: o Estado perde capacidade interna e vira cliente cativo — pagando caro, para sempre, por algo que já era seu.
Dados sensíveis:
O governo afirma que “não há risco à propriedade dos dados pessoais” e que eles “continuam sendo dos cidadãos”. (Governo do Estado do Paraná)
Mas na prática não impede:
- vazamentos (por falha, terceirização, ataque ou descuido);
- uso indevido interno (acesso excessivo, credenciais compartilhadas, consultorias);
- uso comercial indireto (perfilamento, cruzamento, inferência, “produtos” sobre comportamento);
- pressão política (quando dados viram ativo estratégico em ano eleitoral);
- apagões e instabilidade (migração mal feita, cortes de custo, “otimização” que vira colapso).
E quando dá errado, quem paga é o povo: em dano moral, fraude, golpe, serviços fora do ar e até risco físico.
Segurança pública: o próprio governo admite correria para “separar” dados
O Jornal Plural trouxe um ponto crítico: o governo comunicou ao Tribunal de Justiça do Paraná que está contratando serviço de nuvem do Serpro para retirar dados da área de segurança pública da Celepar e viabilizar a privatização — e informou que um contrato com a Indra Brasil Soluções e Serviços Tecnológicos foi extinto em 22/01/2026 (publicado em 23/01/2026). (Plural)
Se está tudo tão “seguro” e “sem risco”, por que a pressa para deslocar justamente segurança pública?
Aqui existe um alerta adicional: a LGPD tem regras e exceções para tratamentos ligados a segurança pública, que exigem cuidados e marcos específicos — ou seja, não é “qualquer empresa” que pode tocar isso como se fosse CRM de varejo.
Sigilo e atropelo: quem tem medo da transparência?
A oposição na Assembleia Legislativa do Paraná já protocolou pedido para retirada de sigilo e cobrou debate público sobre uma venda que impacta o conjunto da população. (Assembleia Legislativa do Paraná)
Processo dessa magnitude não pode andar em segredo. Transparência não é favor — é obrigação.
O STF no jogo — e o risco institucional continua
Além do Tribunal de Contas e do Judiciário estadual, há questionamento no Supremo Tribunal Federal: PT e PSOL ingressaram com ADI, e o relator é o ministro Flávio Dino. (Gazeta do Povo)
Isso reforça que não há consenso técnico e jurídico sobre a condução do processo — e, mesmo assim, o governo acelera o edital. (Governo do Estado do Paraná)
Segundo o presidente do Sindael, Marco Santana, que acompanha com preocupação este processo, “privatizar a Celepar é trocar soberania por promessa e segurança por propaganda. Não existe ‘venda sem risco’ quando o que está em jogo são os dados do povo e a continuidade de serviços públicos essenciais. O Paraná não pode aceitar que uma estrutura estratégica vire negócio — e que a conta, como sempre, fique para o cidadão e para os trabalhadores.”
Quando um governo diz que tem “coragem de fazer medidas impopulares”, o povo precisa traduzir: pode estar vindo retirada de direito, corte de serviço e venda de patrimônio. E, neste caso, não é só patrimônio físico — é a vida digital do povo paranaense.
Celepar pública é segurança, soberania, continuidade e respeito ao cidadão. Vender é transformar o Estado em cliente e o povo em risco.



