Água não é mercadoria: defender a Sanepar pública é defender o Paraná

Fena (Copy)

Artigo de opinião do presidente da FENATEMA

A Sanepar atravessa um momento delicado. Denúncias recentes envolvendo a alta cúpula administrativa, vazamentos de áudios e suspeitas de uso político da estrutura da empresa — inclusive relacionadas ao Plano de Cargos, Carreiras e Remuneração (PCCR) e ao Programa de Participação nos Resultados (PPR) — acenderam um alerta legítimo na sociedade e entre os trabalhadores. Tudo isso precisa, sem exceção, ser investigado com rigor, transparência e responsabilidade pelos órgãos competentes.

O que não podemos admitir é que essas denúncias sejam usadas como cortina de fumaça para um objetivo antigo e conhecido: a privatização do saneamento. A história brasileira mostra que, sempre que uma empresa pública estratégica é colocada sob ataque moral, surgem “soluções” que nada têm de republicanas. Demoniza-se o público para justificar a entrega do patrimônio coletivo ao mercado.

É fundamental separar as coisas. Combater irregularidades não tem nada a ver com privatizar. Ao contrário: privatizar é punir a população por erros — ou crimes — que devem ser atribuídos a indivíduos, não ao caráter público da empresa. Se há gestores que se desviaram de sua função, que respondam por isso. Mas destruir a Sanepar como empresa pública seria cometer um crime ainda maior contra o povo paranaense.

As matérias recentes que expõem a chamada “caixa-preta” do PCCR e as suspeitas de rachadinhas no PPR reforçam uma preocupação antiga do movimento sindical: a captura política de instrumentos de gestão que deveriam proteger o mérito, a carreira e a autonomia técnica dos trabalhadores. Quando planos de carreira se tornam subjetivos, opacos e concentrados nas mãos de indicações políticas, cria-se um ambiente de medo, silenciamento e favorecimento — exatamente o oposto do que se espera de uma estatal sólida.

Nada disso, porém, invalida a função social da Sanepar. Pelo contrário. A empresa é lucrativa, eficiente e essencial para a saúde pública e o desenvolvimento regional. É graças ao seu caráter estatal que existe o subsídio cruzado, permitindo que cidades menores tenham acesso ao saneamento, e que milhares de famílias sejam atendidas pela Tarifa Social. O setor privado não opera com essa lógica: onde não há lucro máximo, não há interesse.

Os exemplos Brasil afora são didáticos. A SABESP, em São Paulo, foi vendida sob o discurso da eficiência e hoje enfrenta críticas pela falta de investimentos em áreas periféricas. A CEDAE, no Rio de Janeiro, viu as tarifas explodirem após a privatização. E, no setor elétrico, a ENEL se tornou sinônimo de apagões, descaso e sofrimento da população. Esse é o futuro que querem impor ao saneamento do Paraná?

Defender a Sanepar pública não é um ato ideológico; é uma defesa concreta da vida, da saúde e da dignidade. Água e saneamento não podem ser tratados como mercadorias submetidas à lógica do acionista. São direitos fundamentais.

A saída para a crise não é vender a empresa, mas abrir as caixas-pretas, fortalecer os mecanismos de controle, garantir gestão técnica, transparente e democrática, e valorizar os trabalhadores que fazem a Sanepar funcionar todos os dias. Que saiam os interesses eleitorais e permaneça o interesse público.

A FENATEMA seguirá firme nessa defesa. Privatizar a Sanepar é condenar o povo paranaense a pagar mais caro por um serviço pior. Manter a Sanepar pública é afirmar que a água é um direito, não um negócio.

Sanepar pública, estatal e a serviço do povo.

Eduardo Annunciato – Chicão
Presidente da Federação Nacional dos Trabalhadores em Energia, Água e Meio Ambiente – FENATEMA e do Sindicato dos Eletricitários do Estado de São Paulo – STIEESP

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