Setembro Amarelo: de que adianta falar em saúde mental se o trabalhador vive sob pressão do PCCR?

Set amarelo (Copy)

Campanha de prevenção ao suicídio também precisa olhar para as condições concretas de trabalho. Para o Sindael, não basta oferecer acolhimento psicológico enquanto um sistema de carreira é marcado por insegurança, avaliações contestadas e falta de transparência.

Você não está sozinho. Se o PCCR está causando pressão, insegurança, injustiça ou prejudicando sua saúde mental, procure o Sindael. Denuncie, relate o que está acontecendo e busque orientação. Não aceite o silêncio como resposta. Trabalhador não é número, e ninguém deve enfrentar sozinho um sistema que precisa ser mudado.

Setembro é dedicado à conscientização e à prevenção do suicídio. É um período importante para falar sobre acolhimento, escuta, respeito e saúde mental. Mas, para os trabalhadores da Sanepar, essa discussão precisa ir além das campanhas institucionais e chegar ao cotidiano de quem enfrenta pressão, insegurança e incerteza dentro da empresa.

Na Sanepar, a própria companhia informa que mantém iniciativas voltadas à saúde emocional dos empregados, como o programa Mente em Foco, oficializada por meio da assinatura de uma carta de compromisso junto ao Pacto Global da ONU, além de ações realizadas durante a campanha Setembro Amarelo.

O problema é que, enquanto a empresa fala em bem-estar, cresce entre os trabalhadores a preocupação com o modelo de avaliação do Plano de Cargos, Carreiras e Remuneração – PCCR.

Há anos o Sindael denuncia problemas no sistema. Em 2024, o sindicato já apontava dificuldades nas avaliações, obstáculos para a obtenção de steps, problemas no reconhecimento de cursos e critérios considerados excessivamente complexos.

Em 2025, após apresentar um parecer técnico baseado em uma ampla enquete realizada com trabalhadores, o Sindael voltou a cobrar mudanças. Na ocasião, segundo o sindicato, a própria Sanepar reconheceu falhas no sistema de avaliação e se comprometeu a rever critérios e métodos.

Mas, em março de 2026, o sindicato denunciou que o novo ciclo de avaliações começou sem mudanças no modelo. Entre as principais críticas está a impossibilidade de trabalhadores com desempenho semelhante receberem, de forma efetiva, a mesma avaliação, criando uma espécie de competição dentro das equipes e aumentando a sensação de desvalorização.

Quando a avaliação deixa de desenvolver e passa a pressionar

Quando o trabalhador não consegue compreender claramente como sua avaliação é construída ou sente que seu esforço não é reconhecido, a ferramenta deixa de cumprir sua finalidade.

É justamente esse ponto que preocupa o Sindael.

Em julho deste ano, o sindicato voltou a convocar trabalhadores a denunciar erros e desvios na aplicação do PCCR, especialmente nos casos em que empregados são avaliados por atividades secundárias, apesar de desempenharem outras funções no cotidiano.

O cenário ganhou ainda mais gravidade diante dos relatos de processos administrativos e demissões associados aos resultados do PCCR. Em julho, o Sindael informou que o Coletivo Sindical buscava esclarecimentos da direção da Sanepar diante de relatos que apontavam para mais de 100 demissões e dezenas de processos administrativos.

Para o presidente do Sindael, Marco Santana, o problema deixou de ser apenas uma discussão sobre salário ou progressão profissional, para ele, “tem gerado apreensão e, na prática, acabou se tornando uma ferramenta de preocupação.”

Segundo Marco, o PCCR deveria ser um instrumento de valorização e desenvolvimento, mas a forma como vem sendo aplicado precisa ser revista para acabar com a insegurança que atinge os trabalhadores.

Setembro Amarelo também precisa falar do ambiente de trabalho

Prevenção em saúde mental não pode significar apenas palestra, cartaz ou atendimento psicológico. Esses instrumentos são importantes, mas precisam caminhar junto com políticas que reduzam fatores de pressão e insegurança no ambiente profissional.

Não se trata de afirmar que problemas no PCCR sejam, por si só, causa de adoecimento grave ou de suicídio. Trata-se de reconhecer que ambientes de trabalho marcados por medo, insegurança, falta de reconhecimento e critérios considerados injustos podem aumentar o sofrimento e precisam ser enfrentados com seriedade.

E há outro ponto central: transparência.

Em 2026, uma auditoria do Tribunal de Contas do Estado do Paraná apontou 21 oportunidades de melhoria no Portal da Transparência da Sanepar. Entre os problemas identificados estavam justamente informações relacionadas a cargos e remunerações.

O próprio TCE-PR também registrou, em documentação da fiscalização, que a Sanepar classificava o PCCR como documento restrito ao âmbito interno, fornecendo determinadas informações somente a empregados ou candidatos aprovados.

Para o Sindael, essa falta de transparência é parte importante do problema. Sem regras claras, critérios acessíveis e possibilidade de fiscalização, o trabalhador fica sem condições de compreender plenamente como sua carreira está sendo avaliada.

Valorizar o trabalhador é cuidar da sua saúde

O Setembro Amarelo deve ser também um convite para que a Sanepar olhe para dentro.

Não basta dizer que “as pessoas estão no centro de tudo”. É preciso que essa afirmação apareça na prática: na forma de avaliar, promover, remunerar, reconhecer e tratar quem sustenta diariamente os serviços prestados à população.

Neste Setembro Amarelo, a pergunta que fica para a Sanepar é simples:

Como falar em saúde mental sem discutir as condições que fazem parte da saúde mental no trabalho?

Para o Sindael, falar em valorização significa também enfrentar o PCCR, corrigir suas distorções, garantir transparência e impedir que uma ferramenta criada para desenvolver pessoas seja percebida pelos trabalhadores como fonte de medo e insegurança.

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